Futebol brasileiro depende das "bets"?

Clubes defendem a importância financeira das casas de apostas, mas os impactos do vício e os problemas de gestão colocam em xeque o modelo adotado pelo futebol nacional

João Damazio (@damaz1o)

9/18/20263 min read

“O FIM DO FUTEBOL BRASILEIRO?”

Na noite dessa quinta-feira (17), a Federação Paulista de Futebol, em conjunto com diversos clubes, emitiu uma nota ressaltando a importância das bets (casas de apostas) para o futebol brasileiro.

Ao longo da nota, a federação alega que reconhece os problemas sociais causados pelo vício no “produto” que essas empresas fornecem, mas entende que a proibição das apostas esportivas, que recentemente entrou em pauta no Congresso Nacional, prejudicaria clubes de diversas divisões do futebol, não só paulista, mas de todo o cenário nacional.

O cumprimento de contratos, os investimentos nas categorias de base e o andamento de projetos sociais são outros setores que seriam gravemente afetados pela proibição, de acordo com a Federação.

Além da Federação Paulista de Futebol e dos clubes do estado de São Paulo, diversos outros clubes se pronunciaram, por meio de nota, contra a atitude do Governo Federal em relação às casas de apostas. Flamengo, Fluminense, Cruzeiro, entre outros, divulgaram o mesmo manifesto.

Como todos sabemos, e nisso os clubes têm razão, o alto investimento das bets foi o que possibilitou, esportivamente, o domínio dos clubes brasileiros nas competições sul-americanas, além de contribuir financeiramente para a vinda de tantos craques ao futebol brasileiro nos últimos anos. Um dado que demonstra com clareza o impacto dos investimentos das bets no futebol brasileiro é a lista dos maiores patrocínios máster dos clubes da Série A do Brasileirão. O São Paulo tem, como o maior patrocínio máster de sua história, o contrato com a Superbet, avaliado em aproximadamente R$ 113 milhões por ano; O Corinthians também tem como maior patrocínio de sua história um contrato com uma bet: a VaideBet, no valor de R$ 370 milhões anuais; O Palmeiras, apesar de todo o impacto financeiro gerado pela Crefisa, também tem como maior patrocínio máster de sua história um contrato com uma casa de apostas: o vínculo com a Sportingbet, cujo valor ultrapassa os R$ 100 milhões anuais; O Santos, que agora tem a Novibet estampando seu peito, possui como maior patrocínio máster de sua história o contrato com a 7k, parceria que poderia render ao Peixe até R$ 150 milhões. Além desse histórico dos times paulistas, o maior contrato de patrocínio máster da história do futebol brasileiro, obviamente falando em valores financeiros, é o do Flamengo, avaliado em cerca de R$ 268,5 milhões anuais.

Apesar de todo esse aporte financeiro, não há como falar de apostas online sem mencionar os danos à saúde causados por essa prática. A própria OMS (Organização Mundial da Saúde) reconhece o transtorno relacionado aos jogos de azar e o classifica na CID-11 sob o código 6C50. Além da OMS, a AMB (Associação Médica Brasileira) também confirma a existência do transtorno, conhecido como ludopatia, e indica métodos para identificar o vício antes que ele se torne um perigo maior à saúde do “apostador”, além de alertar sobre os riscos financeiros que podem atingir a família e as pessoas próximas.

Sabendo dos danos causados ao torcedor, e não se enganem, eles sabem, os clubes, que não conseguem se unir para uma melhor divisão dos direitos de imagem ou para a criação de uma liga, se uniram para se manifestar contra a proibição de empresas que fornecem apenas vícios à população.

Os clubes brasileiros existiram por muito tempo sem as casas de apostas. O que degrada o futebol brasileiro são as péssimas gestões e as administrações criminosas desses mesmos cartolas que estão implorando pelo dinheiro do vício de milhões de torcedores.

Se o futebol brasileiro vai acabar com o fim das casas de apostas, significa que o futebol brasileiro já acabou há muito tempo. Se o preço desse “domínio” brasileiro nas competições sul-americanas, que os clubes tanto defendem, é o adoecimento e a perda financeira de milhares de brasileiros, esse preço não deve ser pago.